A edição e a construção da narrativa em Estudo Sobre a Liminalidade, de Camila Svenson

Categoria: Autores, Pensamento e teoria, eProjetos.

06/10/2015

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A fotografia tem encontrado seus resultados mais expressivos em projetos que são apresentados de uma maneira seqüencial. Há uma preferência pela construção de narrativas através da associação de diversas imagens, construindo assim um trabalho finalizado.

Esse uso narrativo da fotografia tem sido aprofundado com o interesse cada vez maior na produção de fotolivros, sendo estes considerados a forma principal de expressão de um trabalho para muitos fotógrafos. Apesar deste foco, ainda há um estudo tímido sobre a lógica e a estrutura destas construções, tudo ainda é muito feito no instinto, baseado na vivência do autor.

Para tentar desvendar um pouco mais sobre este processo conversamos com Camila Svenson sobre a edição e a narrativa de seu ensaio Estudo Sobre a Liminalidade. Camila já publicou seu trabalho na OLD e se formou recentemente no ICP, em Nova Iorque.

 

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Neste projeto Camila busca entender algumas relações que estabeleceu ao longo dos anos e também construir imageticamente a ideia de pertencimento e perda de um lugar. Esta sensação se desenvolve através de retratos e da investigação de lugares, no interior de São Paulo, que têm um valor afetivo para a fotógrafa.

Não há – na atual edição de Estudo Sobre a Liminalidade – uma relação causal entre as imagens. Há uma associação entre imagens próximas e no todo da série, mas uma imagem não leva à outra por uma relação de causa e conseqüência, dessa forma não se constrói uma narrativa direta, mas sim uma atmosfera, que aos poucos vai se intensificando e ficando cada vez mais complexa.

Em nossa conversa, Camila fala sobre uma das grandes dificuldades na construção desta atmosfera narrativa: o desapego em relação a imagens que são importantes para o fotógrafo, mas não transmitem nada para o observador.  “entender que não eram todos os espaços ou retratos que poderiam caber na narrativa – não importa o quanto aquilo representasse ou fosse importante para mim. Porque as outras pessoas deveriam se importar? Foi o que um professor meu vivia repetindo quando olhava as minhas fotos. Elas eram ‘bonitinhas’ como objetos singulares mas não traspassavam absolutamente nada. Tive que treinar o meu olhar e ser extremamente crítica e analítica, para conseguir me desvencilhar de fotos que certamente eram essenciais – mas só para o meu próprio ego.” Este processo, muito bem apontado pela fotógrafa, é essencial para construir um ensaio relevante. Afinal de contas, não fotografamos só para nós mesmos, fotografamos para o outro também.

 

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Além de entender a relevância de cada fotografia dentro do ensaio, é também essencial entender a função de cada uma das imagens dentro da narrativa e como elas contribuem para o objetivo final da série. Não há interesse em ter uma fotografia bela, fantástica, mas que não contribui para o que está sendo contato. Além disso, dentro das imagens que estão na série, a ordem e a proximidade de outras altera sua função narrativa, então é preciso sempre ter isso em mente.

Assim, Camila vê “uma distinção bem grande entre os retratos e os espaços no sentido estético de composição.  Cada um ocupa um lugar diferente dentro dessa narrativa. E juntos conseguem contextualizar esse conceito de liminalidade que eu quero explorar.“

Além da distinção estética, há também uma diferenciação de função entre estes dois grandes grupos de imagens na série: “os retratos lidam com a parte mais emocional e irracional do projeto – esse sentimento e sensação de que o mundo como eu conheço está prestes a acabar, e este é o último momento e o último encontro antes que isso aconteça. São sobre perda, sobre a passagem óbvia do tempo e também sobre distância.  Eles tem uma carga diferente dos espaços, que vão para um lado mais analítico, menos emocional e mais objetivo –  de explorar a estaticidade do passado e do presente. As linhas retas, a aridez do interior, a plasticidade de uma arquitetura funcional;  portões, a piscina do prédio. Na narrativa um depende do outro para existir. Eles são complementares no sentido que para contar esta história eu preciso da irracionalidade e do mistério presente na maneira que estas pessoas me encaram através da câmera, quanto também preciso da estrutura formal destes espaços.”

 

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Através da aproximação entre retratos e objetos, Camila constrói sua narrativa, unindo imagens que não são necessariamente próximas por tempo ou geografia, mas se aproximam visual e narrativamente. Com isto, ela consegue construir sua história, mesmo que esta ainda não seja a versão final deste conto:  “Acredito que a sequência das fotos ainda vai mudar muito, porque ainda pretendo fotografar esse projeto por algum tempo – mas neste primeiro momento decido por alternar retratos e espaços de maneira que um complemente a narrativa do outro. Os espaços não necessariamente pertencem aquelas pessoas, mas eles dialogam de maneira orgânica. Também prestei atenção na parte estética da paleta de cores para que o produto final tivesse uma consistência e coesão como um todo. Não acho que essa narrativa é linear, a sequência é flexível e pode ser vista em combinações diferentes, não alterando radicalmente a história.“

Estudo Sobre a Liminalidade nos apresenta um processo de edição muito consciente, que tem objetivos e procedimentos claros, mesmo que ainda não esteja em sua forma final. Assim o trabalho ganha força e qualidade, se apresentando de uma maneira complexa para cada novo espectador.

 

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Texto por Felipe Abreu.

Felipe é editor da OLD e fotógrafo. Atualmente concentra suas pesquisas na criação da narrativa e edição fotográficas.

revista.old@gmail.com